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26.5.09

Até logo.

*

Agora estou aqui, do outro lado do espelho, diz M.
O que aqui se passou fui eu. Fui eu que passei. Em cada texto – meu ou não – era eu que falava. Os que não me pertenciam escolhi-os justamente porque, ao lê-los, sentia que tinham sido escritos para mim. Partilhei-os julgando que, da mesma forma, poderiam oferecer-se a quem passava. Em forma de hospitalidade.

(Ainda esperei que viesses, P. , - que, de alguma maneira, por algum sortilégio, soubesses de mim aqui, me interpelasses nesta minha outra forma de ser. Pergunto-me se não o saberias...
Não tem importância alguma, exceptuando o facto de eu ter decidido que seria justamente hoje o dia de fechar a porta. Tu entenderás, se aqui chegares. É portanto, também, de uma ausência que me despeço.)

O Ofício Inquieto, tal como foi imaginado, termina aqui.
A minha forma de ser é o silêncio, como em tempos aconteceu com Malina. Somos o verso e o reverso da mesma pessoa, é claro. A essência não se perde se o diálogo se fizer dentro de nós. Ambas o quisemos e ambas estamos agora mais ricas e mais livres. Eu estou. Eu também.

Um abraço a todos os viajantes deste reino de luz e sombra. Obrigada a quem teve a gentileza e a paciência de comentar; a quem veio conversar comigo a esta casa.
Havemos de reencontrar-nos por aí.

M.
* The Byrds - Turn Turn Turn

21.5.09

Deve e Haver

Deviamos ter direito aos abraços que demos pela vida fora. Infelizmente não é sempre assim. Há quem tenha dado toda a ternura e tempo aos filhos e não tenha recebido de volta o que ofereceu de forma tão gratuita. Aos filhos e não só. A vida é injusta para muita gente.
Outras vezes, somos nós que não nos merecemos, de todo.
Obrigada A. e R., por estarem sempre aí.

Obrigada, vida.

M.

Contra o esquecimento


UTILIDADE

Só as mãos que se estendem para a frente interessam
Só os olhos que vêem para além do que se vê,
só o que vai para o que vem depois,
só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,
só o amor por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda,
nem nunca, será nossa
interessa.

Mario Dionísio, Poesia Incompleta, Europa-América, 1967

20.5.09

Que o sol pede música

Might as well give up that fight again
I know darn well he'll convince me that he's right again
When he sings that sorry song
I've just gotta tag along
With that ole devil called love

19.5.09

Anjos e Demónios

Tenho ouvido as opiniões mais díspares acerca deste filme. Em quase todas lá vem um conselho final: se já leste o livro, muito provavelmente vais desiludir-te. Se não leste não vais achar piada nenhuma à solução encontrada para os problemas da Humanidade. Se estás curiosa...
E não sei que faça. Provavelmente, vou apostar na companhia. Que, como eu, detesta comer pipocas durante uma sessão de cinema. Se sairmos, ao menos teremos (ainda) as pipocas para um belo passeio com lua em quarto minguante, ao som de Bach, festejando o dia do seu nascimento.

17.5.09

Fotos que trazem versos (e vice-versa)

*

Going Places

Era uma casinfância (...) casabsoluta.
Herberto Helder

*Keith Jarrett - Somewhere over the rainbow

14.5.09

O tempo a haver

*


Seremos o que pudermos não perder
na fulminância da nossa passagem

Meu espaço____ teu abraço
como todo o amor cai sobre o rosto revelado!

M.
*John Coltrane; Duke Ellington - In a Sentimental Mood
Foto do Google

13.5.09

Tons matinais

Sometimes I believe in fate
but the chances we create
always seem to ring more true
you took a chance on loving me
I took a chance on loving you

(este blogue tem dias de uma meladice pegada. não, não é tristeza, nem melancolia, nada que se pareça. antes uma saturação indescritível da usura das palavras. minhas. eu que tenho de as pôr a uso tantas horas ao dia. não sou mulher-a-dias. sou mulher-a-palavras.)

M.

10.5.09

A-ver-a-lua

*

____________
... como um clarão ou cintilação da alma, ali está ela ao dobrar da esquina, subitamente extática naquela rua oblíqua, testemunha, selo e senha.
(... quer seja da lua ou não, já a praça nos parece conhecida, esta rua e outra rua já são sempre a mesma rua, e é mais abraço e riso o que pedimos. De regresso, escada acima, cotovelo a cotovelo, rimos do que não dizemos. Um olhar é mais que a lua, traz todos os astros dentro. E por culpa dela - ou não - um beijo sucumbe ao sono e rimos do que não fazemos.)

*Van Morrison & BB King - If you Love Me

7.5.09

Sem nostalgia

*

Foto do Google

A alegria das coisas miúdas___________ um post-it esquecido dentro de um livro; uma nesga de luz insurrecta na persiana do quarto, manhã cedo, sobre os olhos; o cheiro breve e adocicado das glicínias, ao sair de casa; o som do amola-tesouras sob um céu escandalosamente azul; a esplanada fresca do fim da rua; os retratos dormentes na moldura nostálgica; aquela música perdida, à queima-roupa no sinal vermelho; a mensagem de um amigo – quem dera que aqui estivesses; a vendedora de suspiros que se afasta e devolve o largo à folia dos pássaros.

A alegria das coisas miúdas está sempre muito próxima de um júbilo da infância, do tempo em que, dentro dela, não sabíamos ainda o peso que tudo teria. Ou o encanto.

* Enrico Pieranunzi - Transnoche

M.

30.4.09

O teu sorriso


*


O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa,ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra, Limiar, 1988

* Dinah Washington - What a Difference a Day Makes

26.4.09

Imaginário(s)

Espera-se para Outubro a exibição de Onde vivem os monstros, uma adaptação de Where the Wild Things Are, belíssimo livro de Maurice Sendak que, em 1963, revolucionou a forma de escrever (e ilustrar) livros para crianças. Trata-se de uma fantasia infantil, mas de temas complexos, na esteira de História Interminável ou Labirinto. A narrativa já foi adaptada para teatro, ópera e até mesmo para bailado.
O filme está a cargo de Spike Jonze, o realizador dos premiados Adaptação e Quero Ser John Malkovich. Com banda sonora dos Arcade Fire. Por enquanto, fica aí o trailer. Não vou querer perder.

25.4.09

Auto-regulação

Jornal A Capital, 25 de Abril de 1974

- Foi numa 5ª feira. Hoje é sábado. Há portanto ainda tudo para fazer - digo.
E do meu lado esquerdo, do lado mais inteiro da esperança, M. responde, hoje com um brilhozinho nos olhos:
- Há sempre uma manhã a qualquer hora do dia.

E eu quero acreditar.

24.4.09

A Clarice da Patrícia

Para quem for sensível a este tipo de projectos e, sobretudo, apreciar a obra da escritora, aqui fica a dica. Para a Patrícia Lino, uma vénia: pelo arrojo, a criatividade e o gosto pessoal.
Jovens destes merecem o maior apoio.

21.4.09

O fim do IKEA?


Elas andem aí, as FlexibleLove. Devem ser baratinhas e recicláveis; olhem lá o negócio que não será. Que venha a crise e traga jovens designers destes. Há sofás em vários tamanhos para um número variável de pessoas. São de tal maneira leves e flexíveis que qualquer criança as pode arrumar.

18.4.09

Pequenos nadas

Algumas das muitas coisas que me fazem feliz:

Ficar na cama, a ouvir a chuva cair lá fora.
Um supermercado sem filas de espera nas caixas.
Conduzir numa estrada à beira-mar.
Embrulhar-me, depois do banho, numa toalha acabada de engomar.
Uma boa conversa.
Encontrar dinheiro no casaco pendurado desde o último Verão.
Rir-me de mim mesma.
Ter amigos.
Acordar e sentir que ainda tenho mais tempo para continuar a dormir.
Uma mão terna e leve a mexer-me no cabelo.
Sair, inesperadamente, para beber um chocolate quente ali na esquina.
Fazer-me à estrada com os amigos.
Capas de CDs com letras de canções para poder cantá-las enquanto oiço a música.
Ir a um bom concerto.
Ser abraçada pelos filhos e cairmos todos no tapete fofo da sala.
Ler um livro enrolada no sofá, numa tarde de domingo.
Cheirar a tua camisa antes de metê-la na máquina de lavar.
Ver o sorriso e ouvir as gargalhadas dos amigos.
Encontrar por acaso um velho amigo e ver que o que aprecio nele não mudou.
Olhar para as tuas mãos.
Ver o nascer do sol em pleno Agosto.
Observar o contentamento dos filhos ao abrirem um presente que lhes ofereço.
Cheirar os morangos silvestres que me trazes de presente.
Dançar descalça na sala, sozinha, só porque a música chamou.
Ter a casa em silêncio, quando chego, depois de ver um filme melado.
Passear de mão dada à tua por esse mundo fora.
As fatias do bolo de páscoa torradas com manteiga.
Trincar uma maçã sumarenta e fresca.
Recordar os lugares da infância, os cheiros da cera, do alecrim, o fumo da casa de granito.
Quase desaparecer dentro da velha camisola em noites de frio.
Ouvir a Bethânia "Tocando em frente".