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26.5.09

Ao longe, ao longe

*

Egon Schiele - Four Trees

Se nos prados daqui
eu nunca mais for vista nem achada,
direis que me perdi,
que ando enamorada,
por perdida me dei, e fui ganhada

São João da Cruz, in Cântico Espiritual, Fundacion Universitaria Española, 1981

*
Miles Davis - Blue in Green

25.5.09

Tudo se destina ao silêncio

*

Construí a minha casa no mundo dos homens
E no entanto não ouço qualquer eco de cavalos e carroças.
Queres saber como pode isto acontecer?

Um espírito desprendido cria o silêncio à sua volta.
Colho crisântemos perto da sebe.
O ar da montanha é puro neste crepúsculo
E os pássaros, em bandos, voltam aos seus ninhos.
Tudo isto tem um sentido profundo,
Mas, assim que tento explicá-lo,
Ele desaparece por entre o silêncio.

T'ao Ch'ien (365-427), in O Elogio do Silêncio, Marc de Smedt, Sinais de Fogo, 2001
* Chopin - Nocturne in D flat major

21.5.09

Contra o esquecimento


UTILIDADE

Só as mãos que se estendem para a frente interessam
Só os olhos que vêem para além do que se vê,
só o que vai para o que vem depois,
só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,
só o amor por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda,
nem nunca, será nossa
interessa.

Mario Dionísio, Poesia Incompleta, Europa-América, 1967

18.5.09

Requiem para um poeta

*

Mario Benedetti (1920 - 2009) – escritor uruguaio

Contista, novelista, poeta, ensaísta, dramaturgo e crítico, com mais de 70 títulos publicados, Benedetti faleceu ontem aos 88 anos. Foi galardoado com vários prémios literários, entre os quais o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana (1999), o Prémio Iberoamericano José Martí (2001) e o Prémio Internacional Menéndez Pelayo (2005).

A poesia, disse Benedetti, é um sótão de almas, uma clarabóia para a utopia e uma drenagem da vida que ensina a não temer a morte.

Táctica y estrategia

Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos.

Mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible.

Mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos.

Mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos.

Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple.

Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

*J.S. Bach - Paixão de S Mateus - BWV244- (cello:Yo-Yo Ma)

Rosa, rosae, rosae


Precisão

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector
Foto de Malina

12.5.09

Das coisas simples

*

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
— ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria e, lá fora — ah, lá fora! — rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.

Mário Cesariny, Burlescas, Teóricas e Sentimentais, Editorial Presença, 1972
* Miles Davis - Summertime

3.5.09

Leituras de sempre

*

Vaguíssimo retrato

Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser –

se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade, (Obscuro Domínio, 1972), in Poesia e Prosa, Limiar, 1990

* John Coltrane - Stardust

2.5.09

Amor em Maio


*

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? –
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!

Alexandre O´Neil, Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães, 1960

* Insensatez - de António Carlos Jobim, no sax de Stan Getz

1.5.09

Diapositivo

*

Pintura de Graça Morais

RITMOS

E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:
a prosódia da mão, a ervilha dançando
em redondilha.
Misturar ritmos em teia apertada: um vira
bem marcado pelo jazz, pas
de deux: eu, ervilha e mais ninguém

De vez em quando o salto: disco sound
o vazio pós-moderno e sem sentido
Ah! hedónica ervilha tão sozinha
debaixo do fogão!

As irmãs recuperadas ainda em anos 20
o prazer da partilha: cebola, azeite
blues desconcertantes, metamorfose em
refogados rítmicos

(Debaixo do fogão
só o silêncio frio)

Ana Luisa Amaral, Minha Senhora de Quê, Quetzal Editores, Lisboa, 1999
*Alison Krauss – Broadway

30.4.09

O teu sorriso


*


O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa,ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra, Limiar, 1988

* Dinah Washington - What a Difference a Day Makes

28.4.09

Solilóquio

*

MINHA SENHORA DE QUÊ

dona de quê
se na paisagem onde se projectam
pequenas asas deslumbrantes folhas
nem eu me projectei

se os versos apressados
me nascem sempre urgentes:
trabalhos de permeio refeições
doendo a consciência inusitada

dona de mim nem sou
se sintaxes trocadas
o mais das vezes nem minha intenção
se sentidos diversos ocultados
nem do oculto nascem
(poética do Hades quem me dera!)

Dona de nada senhora nem
de mim: imitações de medo
os meus infernos

Ana Luisa Amaral, Minha Senhora de Quê, Quetzal Editores, Lisboa, 1999.


* Filipe Melo Trio - When Lights Are Low

Velhas leituras


Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora
são as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.

Helder Moura Pereira, Entre o Deserto e a Vertigem, Centelha, 1976

Foto de Malina

24.4.09

A Clarice da Patrícia

Para quem for sensível a este tipo de projectos e, sobretudo, apreciar a obra da escritora, aqui fica a dica. Para a Patrícia Lino, uma vénia: pelo arrojo, a criatividade e o gosto pessoal.
Jovens destes merecem o maior apoio.

23.4.09

(Re)leituras

UMA ESPÉCIE DE PERDA

Usamos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis e linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

( - o jornal dobrado, a cinza fria, o papel como um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme de minha alegria.

Não perdi a ti,
perdi o mundo.

Ingeborg Bachmann, in O Tempo Aprazado (tradução de Judite Berkemeier e João Barrento) , Assírio & Alvim, 1992

20.4.09

Imperdíveis



Ilustrazione

Faço um poema e nasce uma cidade
invento o conteúdo geográfico das coisas.
Escrevo um nome e nasce Dublin
porque Dublin escrevi.
Se onde ponho um traço nasce uma via de ferro
então é um comboio em direcção a Roma.
Faço uma cidade e vejo-me um néon
ponho um anúncio e nasce cigarreta.
O italiano compõe o soar da palavra
eu dou uma entoação ao segredo do fim.
Se há um horizonte para divulgar o Sol
há uma expectação para divulgar o coração.
Se há um moinho para os lados de Perpignan
há um Daudet a repousar o sol numa cadeira.
Se há Avignon, uma festa, a França, a Península Itálica,
Burgos e todas as catedrais espanholas
há uma cidade cheia de Sol a compor a direcção.
Se o mar fica no fim
Lisboa fica ao pé de Lisboa fica súbito
como se o Tejo fosse um braço decepado
e um cacilheiro total o pano de uma bandeira.
( ... )
How Ridiculous They Are

Os intelectuais soen muy ben zurrar
na literatura na poesia no café
Ai how ridiculous ridiculous they are
é verdade ou não, Lord Byron, é ou não é?
Nas pastelarias nas igrejas no café
ai sobretudo sobretudo no café
é verdade ou não é, Lord Byron, é verdade ou não é?
Ai how ridiculous they are
zurrar o sabem no da fror
tempo em que as burras muito hão-de ganhar
como é de D. Dinis (com modificações) o teor

António Gancho, in O ar da manhã, Assírio & Alvim, 1995

17.4.09

Para partilhar


Há poemas que, lidos pela manhã, nos dispõem bem para a vida. A quantos aconteceu?

Cada vez gosto mais da Adélia Prado. Sensibilidade, humor, mas sobretudo a profundidade do pensamento, o verso aparentemente fácil, sem o hermetismo que alguns poetas teimam em trabalhar. A simplicidade é sempre tão difícil de atingir. A clareza. A palavra rica de mil imagens dentro, como diria Virgínia Woolf.

E tenham um bom dia!

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta,
anunciou: vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.
Cumpro a sina.
Inauguro linhagens,
fundo reinos- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

Adélia Prado

8.4.09

Que memória?

mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

é preciso emparedar o demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.

acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.

Alberto Pimenta, Imitação de Ovídio, & etc, Lisboa, 2006.

5.4.09

Homens...como lugares mal situados

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar

Daniel Faria
in Poesia, Edições Quasi

4.4.09

Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar numa caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever

Pedro Oom
in Actuação Escrita, & etc, 1980

2.4.09

Dois em mil...


Alguns gostam de poesia

Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska

in Alguns gostam de poesia, antologia de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro, 2004