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18.5.09

Rosa, rosae, rosae


Precisão

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector
Foto de Malina

17.5.09

Fotos que trazem versos (e vice-versa)

*

Going Places

Era uma casinfância (...) casabsoluta.
Herberto Helder

*Keith Jarrett - Somewhere over the rainbow

16.5.09

B&W para partilhar



Eu não conhecia e fiquei curiosa. Trouxe-me o sabor de algumas fotos antigas. De quando as máquinas eram assim:



29.4.09

Em surdina

*


Ah, o teu olhar
declinante e manso sobre mim,
a tua fronte, assim,
à beira de ser manto,
manhã tímida, secreta ponte.

Ah, como a vida de vida se incendeia,
e é um e já o outro em horizonte.

M.

* Chet Baker in Almost Blue: Live in Paris & Tokyo
Foto de Malina

28.4.09

Velhas leituras


Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora
são as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.

Helder Moura Pereira, Entre o Deserto e a Vertigem, Centelha, 1976

Foto de Malina

27.4.09

e despedir-se de tudo...


Quando alguém parte, tem de deitar
ao mar o chapéu com as conchas
apanhadas ao longo do Verão,
e ir-se com o cabelo ao vento,
tem de lançar ao mar
a mesa que pôs para o seu amor,
tem de deitar ao mar
o resto do vinho que ficou no copo,
tem de dar o seu pão aos peixes
e misturar no mar uma gota de sangue,
tem de espetar bem a faca nas ondas
e afundar o sapato
coração, âncora e cruz,
e ir-se com o cabelo ao vento!
Depois, regressará.
Quando?
Não perguntes.

Ingeborg Bachmann, O Tempo Aprazado (tradução de Judite Berkemeier e João Barrento), Assírio & Alvim, 1992

Foto de Malina