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25.5.09

Tudo se destina ao silêncio

*

Construí a minha casa no mundo dos homens
E no entanto não ouço qualquer eco de cavalos e carroças.
Queres saber como pode isto acontecer?

Um espírito desprendido cria o silêncio à sua volta.
Colho crisântemos perto da sebe.
O ar da montanha é puro neste crepúsculo
E os pássaros, em bandos, voltam aos seus ninhos.
Tudo isto tem um sentido profundo,
Mas, assim que tento explicá-lo,
Ele desaparece por entre o silêncio.

T'ao Ch'ien (365-427), in O Elogio do Silêncio, Marc de Smedt, Sinais de Fogo, 2001
* Chopin - Nocturne in D flat major

23.5.09

Mitos?


1. A escrita torna-nos selvagens. Regressamos a uma selvajaria de antes da vida. E reconhecêmo-la sempre, é a das florestas, tão velha como o tempo. A do medo de tudo, distinta e inseparável da própria vida. Ficamos obstinados. Não podemos escrever sem a força do corpo. É preciso sermos mais fortes que nós para abordar a escrita, é preciso ser-se mais forte do que aquilo que se escreve.
2. O escrito chega como o vento, é nu, é tinta, é escrito, e passa como nada passa na vida, nada, a não ser ela, a vida.

Marguerite Duras, Escrever, Difel, 1994;
(Sem numeração no original)

22.5.09

Dizer para consigo

*


Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever…

Marguerite Duras, Textos Secretos, Quetzal Editores, Lisboa, 1992
* Erik Satie - Gnossienne 1

21.5.09

Instrução, educação e conhecimento

*


Espera-se que a escola eduque e a escola não o pode fazer porque não sabe e, mesmo sabendo, não tem os meios que seriam necessários. A educação é outra coisa! Fazia parte das obrigações da família, digamos assim, e de alguma forma também de uma sociedade educada que necessariamente produziria mais ou menos cidadãos educados.

José Saramago

Pede-se à escola que faça o que é do domínio da casa. Da família. Devia-se pedir-lhe que ensinasse, e bem, apenas. O resto já lá deveria estar quando as crianças chegassem ao portão de entrada. A escola é (foi sempre e será) um espaço formal. E quem não aprende, antes de chegar à escola, que há regras e disciplina próprias desse espaço, não terá, nunca, uma relação gratificante com ela, com os professores, com os seus agentes. Não terá memória de ter aprendido coisas que, só à escola devem ser pedidas. Que só ela pode dar. Independentemente de toda a facilidade com que hoje se tem acesso à informação. Estou a distinguir informação de conhecimento, de saber ou saberes. Falo da integração do que se lê, do que se escreve, do que se inventa, do que se discute, em cada um dos alunos. Falo de auto-sócio-construção. Diferente da que se faz (ou devia fazer) em casa.

M.
* Cat Stevens, Father and Son

18.5.09

Requiem para um poeta

*

Mario Benedetti (1920 - 2009) – escritor uruguaio

Contista, novelista, poeta, ensaísta, dramaturgo e crítico, com mais de 70 títulos publicados, Benedetti faleceu ontem aos 88 anos. Foi galardoado com vários prémios literários, entre os quais o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana (1999), o Prémio Iberoamericano José Martí (2001) e o Prémio Internacional Menéndez Pelayo (2005).

A poesia, disse Benedetti, é um sótão de almas, uma clarabóia para a utopia e uma drenagem da vida que ensina a não temer a morte.

Táctica y estrategia

Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos.

Mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible.

Mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos.

Mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos.

Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple.

Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

*J.S. Bach - Paixão de S Mateus - BWV244- (cello:Yo-Yo Ma)

Rosa, rosae, rosae


Precisão

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector
Foto de Malina

12.5.09

Das coisas simples

*

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
— ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria e, lá fora — ah, lá fora! — rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.

Mário Cesariny, Burlescas, Teóricas e Sentimentais, Editorial Presença, 1972
* Miles Davis - Summertime

8.5.09

De lugar algum


*
Lembro-me sobretudo que o frio não vinha de nenhum lugar, pelo que também não havia maneira de o deter. Fazia parte da atmosfera, da vida, porque a condição da existência era a frieza como a da noite é a obscuridade. Estava frio o chão, o tecto, o corrimão das escadas, estavam frias as paredes, estava frio o colchão, estavam frios os ferros da cama, estava gelada a borda da retrete e a torneira do lavatório, com frequência estavam geladas as carícias. Aquele frio de então é o mesmo de hoje, apesar do aquecimento, espreita nalguns dias de Inverno e faz saltar pelos ares o registo da memória. Quando se teve frio em criança, ter-se-á frio o resto da vida.

Juan José Millás, O Mundo, Ed. Planeta, 2009
* Chopin - Cello Sonata in G minor, for Cello and Piano, Op.65 - Largo (cello: J.Starker)

6.5.09

Gesto suspenso


*

Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quarto, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vagamente, alimentado pela ciolência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento de um homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defronte da porta, a poucos metros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta. Ela não deveria bater, solicitar, inquirir.

Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 2001
*Aziza Mustafa Zadeh - Vagif's Prelude

3.5.09

Leituras de sempre

*

Vaguíssimo retrato

Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser –

se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade, (Obscuro Domínio, 1972), in Poesia e Prosa, Limiar, 1990

* John Coltrane - Stardust

2.5.09

Amor em Maio


*

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? –
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!

Alexandre O´Neil, Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães, 1960

* Insensatez - de António Carlos Jobim, no sax de Stan Getz

1.5.09

Diapositivo

*

Pintura de Graça Morais

RITMOS

E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:
a prosódia da mão, a ervilha dançando
em redondilha.
Misturar ritmos em teia apertada: um vira
bem marcado pelo jazz, pas
de deux: eu, ervilha e mais ninguém

De vez em quando o salto: disco sound
o vazio pós-moderno e sem sentido
Ah! hedónica ervilha tão sozinha
debaixo do fogão!

As irmãs recuperadas ainda em anos 20
o prazer da partilha: cebola, azeite
blues desconcertantes, metamorfose em
refogados rítmicos

(Debaixo do fogão
só o silêncio frio)

Ana Luisa Amaral, Minha Senhora de Quê, Quetzal Editores, Lisboa, 1999
*Alison Krauss – Broadway

Metafísica intermitente


tenho os olhos pesados de supor

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, Edicões Ática, 1982

30.4.09

O teu sorriso


*


O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa,ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra, Limiar, 1988

* Dinah Washington - What a Difference a Day Makes

28.4.09

Velhas leituras


Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora
são as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.

Helder Moura Pereira, Entre o Deserto e a Vertigem, Centelha, 1976

Foto de Malina

27.4.09

e despedir-se de tudo...


Quando alguém parte, tem de deitar
ao mar o chapéu com as conchas
apanhadas ao longo do Verão,
e ir-se com o cabelo ao vento,
tem de lançar ao mar
a mesa que pôs para o seu amor,
tem de deitar ao mar
o resto do vinho que ficou no copo,
tem de dar o seu pão aos peixes
e misturar no mar uma gota de sangue,
tem de espetar bem a faca nas ondas
e afundar o sapato
coração, âncora e cruz,
e ir-se com o cabelo ao vento!
Depois, regressará.
Quando?
Não perguntes.

Ingeborg Bachmann, O Tempo Aprazado (tradução de Judite Berkemeier e João Barrento), Assírio & Alvim, 1992

Foto de Malina

24.4.09

A Clarice da Patrícia

Para quem for sensível a este tipo de projectos e, sobretudo, apreciar a obra da escritora, aqui fica a dica. Para a Patrícia Lino, uma vénia: pelo arrojo, a criatividade e o gosto pessoal.
Jovens destes merecem o maior apoio.

E agora, Mafaldinha?


Quino decidiu suspender temporariamente a sua presença nas páginas de Viva, o suplemento do diário argentino Clarín. São mais de 50 anos de carreira como cartoonista, desenhador de imprensa e autor de banda desenhada que sofreram uma interrupção “temporal”. O criador de Mafalda justifica esta decisão de não continuar a repetir os seus trabalhos por considerar que isso seria uma falta de respeito não apenas aos leitores, mas também a uma longa carreira.

Pois, a estética sem a ética... não dá obra digna de nome.
Por mim, continuo à espera, pois, segundo Quino, a repetição de cartoons não é forçosamente uma coisa negativa:
Foi interessante voltar a vê-los pela assombrosa actualidade que apresentam muitos deles, o que prova que tantos problemas que hoje nos preocupam continuam a repetir-se graças ao talento que a sociedade tem em reciclar os seus erros.
E acrescenta:
Há temas sobre os quais é impossível trabalhar. Eu, pelo menos, não consigo. Por exemplo, mantenho uma velha discussão com a Amnistia Internacional, que me convidou a participar em campanhas. Ora, eu acho que um desenhador de humor não pode dizer nada com o seu trabalho sobre os presos políticos, a tortura, a violação dos direitos humanos. E isso, porque as pessoas serão levadas a concluir que, afinal, essas coisas talvez não sejam assim tão terríveis como as pintam. Acontece que ficam surpreendidos quando me recuso a colaborar com o que consideram uma causa tão nobre. Não posso, há uma fronteira que não quero ultrapassar. Veja-se o caso da Argentina, o meu país: desapareceu muita gente e houve tortura sistemática de presos políticos. Não é possível fazer uma piada sobre a condição do presidiário...
No rescaldo dos atentados de 11 de Setembro em Nova Iorque, Quino identificava explicitamente essa “fronteira”, sugerindo de algum modo aquilo que agora se tornou realidade:
Depois dos atentados, é como se vivessemos todos em Israel ou no País Basco. Felizmente para mim, deixei o meu trabalho bastante adiantado antes de vir. Mas, mais tarde ou mais cedo, vou ter de continuar a fazer cartoons. E quando isso acontecer, estou certo de que alguma coisa mudará, embora não saiba quando e como é que isso vai acontecer.

23.4.09

(Re)leituras

UMA ESPÉCIE DE PERDA

Usamos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis e linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

( - o jornal dobrado, a cinza fria, o papel como um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme de minha alegria.

Não perdi a ti,
perdi o mundo.

Ingeborg Bachmann, in O Tempo Aprazado (tradução de Judite Berkemeier e João Barrento) , Assírio & Alvim, 1992